O inverno de 2025 está sendo marcado por ondas de frio intensas que tomaram conta de boa parte do Hemisfério Sul, afetando desde o sudeste da Austrália até o cone sul da América do Sul. O mês de julho trouxe consigo o auge dessa sequência gelada, que já vinha sendo desenhada desde maio, quando anomalias negativas de temperatura começaram a surgir em vastas regiões oceânicas do hemisfério. Brasil, Chile, Argentina, Uruguai e Paraguai foram diretamente impactados por esse fenômeno atmosférico que remonta aos mecanismos climáticos da Antártica.
Os primeiros sinais vieram em maio, quando dados de satélite revelaram temperaturas abaixo da média histórica (1991-2020) em áreas que vão do sudeste do Índico, passando pela costa sul da Austrália, cruzando o Pacífico e chegando ao Atlântico Sul, até as bordas da Antártica. O corredor do mar de Weddell, por onde ocorre a troca térmica entre o polo e as latitudes médias, foi o principal canal de escoamento do frio.
Em junho, a situação se agravou com massas de ar polar se espalhando por todo o cone sul-americano, especialmente sobre a Península Antártica e a junção entre os oceanos Atlântico e Índico. A chegada do solstício de inverno, em 20 de junho, apenas confirmou a rota dos anticiclones polares móveis (APM), formados no mar de Ross e no setor de Weddell, que avançaram com força sobre o Chile, Argentina e os estados do Sul e Sudeste do Brasil.
Essas massas frias, ao se deslocarem, carregam as características do ambiente onde se originam: temperaturas extremamente baixas, umidade reduzida, alta estabilidade atmosférica e, muitas vezes, um poder de transformação profunda nos quadros meteorológicos dos lugares por onde passam. Quando o continente antártico atinge mínimas históricas, como neste ano, a severidade dessas massas se amplia e alcança até mesmo regiões tropicais, como o sul do Amazonas e do Acre.
Neste julho, duas massas de ar polar consecutivas cruzaram o continente, vindas tanto do Pacífico quanto do Atlântico, reforçando a hipótese de uma Antártica ainda mais fria que o habitual, pelo menos até setembro. Com isso, os efeitos locais se intensificaram, especialmente em áreas de maior altitude, como as Serras Gaúchas, o Planalto Catarinense e regiões serranas do Paraná.
Essas áreas, por estarem situadas em regiões elevadas e mais ao sul, sofrem com baixíssimas temperaturas, favorecendo não apenas a ocorrência de geadas, mas também a formação de neve em situações específicas de umidade e frio intenso. O recente evento de neve registrado no início de julho é consequência direta do encontro entre o escoamento úmido da Amazônia, que desce pelo corredor noroeste-sudeste, e o ar extremamente frio vindo da Antártica.
A imagem de satélite de 1º de julho, às 6h10 (horário de Brasília), mostra claramente essa interação: uma faixa azulada de umidade em baixos níveis corta o Sul, enquanto setas indicam o ar polar descendo sobre o continente. Isso criou as condições perfeitas para a formação de neve, água-neve e até chuva congelada, dependendo da altitude e do momento em que ocorre a condensação.
O destaque também vai para o sincelo, fenômeno raro e visualmente impressionante, onde gotículas de nevoeiro congelam ao tocar superfícies geladas, formando cristais que se fixam em árvores, fios elétricos, telhados e até nas folhas das plantas. No Sul do Brasil, este espetáculo natural foi observado graças à combinação entre neblina úmida, temperatura entre –2,0 e –8,0°C e vento suave.
Outro dado que chamou a atenção foi a sensação térmica de –29,0°C relatada em algumas áreas. Esse número, no entanto, não é a temperatura real do ar, mas sim um índice de perda de calor corporal, que leva em conta o vento, a temperatura e, em versões mais avançadas, também a umidade e a radiação solar. Em noites com céu limpo e vento constante, a sensação de frio extremo é ainda mais acentuada.
Para os próximos meses, a expectativa é de redução na umidade em grande parte do território nacional, especialmente devido ao afastamento da Zona de Convergência Intertropical para o hemisfério Norte, o que fortalece a temporada de ciclones tropicais no Atlântico e enfraquece a entrada de umidade pela Amazônia. Com isso, o cenário passa a ser mais propício à ocorrência de geadas, em vez de precipitação invernal, como a neve.
A configuração atual, com massa polar intensa e baixo teor de umidade, é típica de um inverno rigoroso, mas seco. No entanto, fenômenos localizados ainda podem ocorrer, surpreendendo populações não acostumadas a conviver com temperaturas negativas e o visual de paisagens completamente brancas no Brasil.


